Marcel Proust já dizia que a verdadeira viagem consistia, não em procurar por novas paisagens, mas em ver o mundo com outros olhos. Um dia destes ao folhear um livro de Mindfulness descobri como esta frase resume tão bem o que eu estou a viver neste momento.  E quase que me sinto grata (há dias que sinto mesmo, nos dias bons), pela TAG (transtorno de ansiedade generalizada) ter entrado na minha vida e me ter permitido esta capacidade de ganhar novos olhos, novas perspectivas, sobre as coisas, e, sobretudo, de pela primeira vez, mais do que conquistar novas “paisagens”, querer parar e saborear o que de tão belo há no aqui e no agora. Senti a necessidade de parar a maratona e de me sentar numa rocha a contemplar a paisagem.

Quem me conhece há anos sabe duas coisas que durante 24 anos foram verdade sobre a minha pessoa: 1) não tive uma adolescência rebelde, nem tão pouco conturbada; 2) durante 24 anos sempre tive objectivos concretos, mais ou menos flexíveis, sobre o que queria para a minha vida, que gravitavam, sobretudo, em torno de uma carreira, viagens e independência. E mesmo dentro destas três áreas, conseguia ser específica, ainda que os termos mais concretos tenham tido alguns ajustes nos últimos anos da era Cátia A. C. (antes das crise).

Talvez a TAG esteja a ser só o culminar da entrada na idade adulta onde, de uma vez só perdi todas as certezas, passei uma fase de “rebeldia” e finalmente, comecei a tentar recomeçar, ainda aos tropeções, e como tal, com recaídas, a redescobrir quem é esta nova Cátia (ou quem quer ser), no que toca a necessidades e valores, que são, em última instância, o que norteia as nossas acções, no imediato e a longo prazo, o que nos ajuda na hora de fazer  escolhas difíceis e que são o cerne do que somos, não para os outros, mas para nós mesmos. Se quiserem uma crise na entrada na idade adulta.

É um dos motivos que me levou a parar estes meses, e é o mesmo motivo que levou o meu psicólogo a dar-me um exercício para fazer e a pedir-me que parasse de ler coisas sobre psicologia e sociologia e mente humana. Partilho convosco, não as minhas respostas, mas a folha em branco, com instruções de preenchimento, para que possam também vocês tentar fazer o exercício caso queiram.Tabela de valores ACT

Partilho, ainda, outra coisa: para mim foi imensamente difícil este preenchimento (tentando calar da mente o “devia”, o “eu era”, “o seria de esperar”), sendo que a linha da espiritualidade ainda está por preencher (perguntei ao psicólogo se podia tirar a linha, mas dizem que isso não existe, talvez seja essa uma das razões para eu estar tão desnorteada). Para o que preenchi, sendo apenas sincera comigo própria, descobri uma coisa: a Cátia A.C. é muito diferente da Cátia D.C., e mais uma vez não me sinto triste por ter perdido partes da outra, apenas expectante para descobrir na plenitude quem é esta nova versão e saber, em termos de convivência comigo mesma, o que é que isso significa.

Não foi a paisagem que mudou, foi simplesmente o modo como a vejo.

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