Uma pessoa que sofre de TAG é claramente dado ao drama, e falo por mim, que se tenho uma dor no dedo mindinho do pé esquerdo, a primeira coisa que penso é que este pode estar fracturado, se está fracturado sem me recordar onde é que o possa ter lesionado é porque devo ter osteoporose, que só pode estar ligada ao Síndrome de Cushing ,dado que este se deve ao elevado aumento de cortisol, vulgo hormona do stress, e essa, sabemos nós ansiosos, temos para dar e vender. Conclusão: sou  hipocondríaca, ou tal qual um ser do sexo oposto, só consigo achar que esta dor, que é cada vez mais forte, vai-me matar dentro de dias, caso não vá a correr para o hospital. Na verdade foi só de uma corrida mal dada com umas sapatilhas xpto, mas que não eram adequadas à minha passada.

Se uma pessoa que sofre de TAG utilizasse o seu tempo disponível a aprimorar a escrita, o Ensaio sobre a Cegueira (Blidness, para quem só vê filmes) parecia uma história para crianças, já que um ansioso conseguiria escrever um romance repleto de descrições e apoiado em artigos, mais ou menos, científicos, made by Google, onde, com bem menos do que uma cegueira, a população inteira da Terra seria exterminada em menos de 24h, a começar pelo próprio,  e não escapava nem um, que se lixasse  danasse a alegoria que o Saramago quis realizar na sua obra.

Os ataques de pânico trazem consigo uma consciência e preocupação com o corpo tão elevadas (tenho para mim que isso se deve ao facto de que os ditos ataques ocorrem na maioria das vezes quando a pessoa se sente relaxada), que cada vez que se pára e se repara que, para além de um cérebro, se tem um corpo, e se nota em algo que antes não havíamos notado e que provavelmente SEMPRE ESTEVE LÁ, o mundo ruí e aí começa uma maratona de idas ao médico e de exames, apesar de não raras as vezes, não se fazer o que eles aconselham.

Levante as mãos quem nunca, após o médico desvalorizar a dita dor e dizer que aquela pomadita, ou anti-inflamatório iria ajudar no processo da cura, chegou a levantar a receita. 🙂 Para quê?! Afinal, não se vai morrer daquilo, afinal foi falso alarme, deixa lá estar, que agora já não há pressas, agora o tempo e o sistema imunitário que cuidem do resto.

Tenho para mim que somos as dores de cabeça das seguradoras e hospitais particulares (quem tem  seguro) e que qualquer dia, se estes senhores forem suficientemente inteligentes, irão lembrar-se de nos fazer pagar uma taxa extra pelo seguro, semelhante à dos idosos ou a pessoas que incluem a obstetrícia no mesmo, pois em certas fases da vida, batemo-nos, taco a taco, com os velhotes para conseguir as últimas vagas para uma consulta, das mais diversas especialidades, e o nosso sistema imunitário, por norma, encontra-se tão em baixo como o de de uma grávida, sendo que a nossa boca, nariz e órgão genital são, com frequência, portas escancaradas para o mundo das bactérias, vírus e outros seres invisíveis. Louco do médico que um dia tem a simpatia de nos dar o seu contacto mais directo, seja por telefone ou email, para o caso de precisarmos de o contactar mais brevemente do que a próxima consulta. Penso que é das poucas vezes em que uma boa acção, tão simples, leva a um arrependimento brutal passados poucos dias.

Tenho também para mim que, somos igualmente a dor de cabeça e o motivo das risadas,  nas horas de pausa, dos  enfermeiros da saúde 24. Pois para nós a invenção do século foi a linha de Saúde 24 e é nesta altura que nos lembramos porque é que Portugal  é tido como um países europeus na linha da frente em e-governance e e-health. Nós aplaudimos e confirmamos já que é esta linha que nos evita, ainda assim, duplicar as idas aos hospitais e as metadinhas de victans para adormecer.

Por isso, quando nos dizem que só temos que controlar a ansiedade e todos aqueles sintomas que as pessoas associam, ou lêem, sobre ataques de pânico, estão a passar ao lado de todo um mundo de criatividade melodramática, que poderia ser utilizado para fazer gerar dinheiro. Já dizia a minha mãe que eu tinha veia para cineasta e olhem que não era um elogio. Disse-me um dia destes, também, o meu amigo Timothy: a comédia e a tragédia estão intimamente ligadas (não me recordo se foram bem estas as palavras Tim, desculpa 😉 ), depende da forma como se olha para a situação, e a ironia, era, segundo as suas próprias palavras, ma boa arma para lidar com as desventuras da vida.

A partir de agora vou fazer um esforço e tentar usar a ironia como arma contra estas fatalidades que me “assaltam” de cada vez que o sistema autônomo nervoso se sobrepõe a tudo o resto, em vez de me deixar levar pela frustração de mais “uma voltinha, mais uma moedinha”, não no carrossel, mas em um qualquer consultório médico. Mas começo isso amanhã, porque hoje tenho mesmo que ir ao médico, só perceber porque é que a cândida em vez de se lambuzar com o creme, está, provavelmente, a divertir-se a comer-me o interior do corpo.

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