Quarta-feira à noite no encontro semanal de Couchsurfing

(conversa entre uma portuguesa, um israelita e um americano)

Eu: De onde vens?

Gal: Israel.

Ed:O que fazes?

Gal:NADA.

Eu e Ed esbugalhamos os olhos. Eu penso que talvez ele não tenha percebido bem o que estávamos a perguntar e reformulo:

-Agora estás de férias ou fizeste uma pausa, mas trabalhas, estudas, gap year…?

Gal: já fiz a faculdade, já trabalhei, agora decidi parar e não faço nada, mas não determinei por quanto tempo.

Eu e o Ed devemos ter feito umas caras bem bonitas porque o Gal prosseguiu: Não se preocupem já estou habituado a essa cara e à falta de resposta cada vez que digo isto, mas é a verdade. Estive uns meses no Brazil, estou há dois em Portugal,porque sempre quis aprender português, adoro Bossa Nova, no domingo parto para a Suíça, onde irei fazer um trabalho pontual, e a partir daí logo se vê, não tenho nada programado, mas talvez vá para o norte.

Ed: Parabéns rapaz, é preciso ter coragem para assumir que não se faz nada. Então como te defines? Então e objectivos?

Eu salto, esta pergunta acompanha-me há uns dias: Olha lá Ed porque é que nós nos temos que definir pelo que fazemos? Mas eu sou a minha profissão? E quando não te identificas, e quando perdes os objectivos?

Gal (pensativo): também há quem se defina dizendo: sou pai ou mãe…

Ed: Por norma definimo-nos por elementos externos a nós (O Gal concordou, eu fiquei a pensar).

Gal: E tu (para mim) o que fazes?

Eu: Bem eu…até sexta estou a trabalhar numa consultora, depois passo a não fazer nada também. (Foi a primeira vez que o disse em voz alta sem vergonha).

Ed a sorrir estica-me a mão para um hi5: Aos que não fazem nada.

Eu: Ed tu trabalhas, para ti, mas trabalhas, não te incluis no grupo, e eu não sei bem como vou “sobreviver” 3 meses sem na verdade fazer nada, sem me atafulhar de planos, mas pelo menos melhorar o meu inglês está incluído no não fazer nada, assim como provavelmente viajar.

Gal: Ao princípio mete medo (a minha família também ficou reticente)  e é estranho, depois habituas-te. Por norma em Israel todos param um ano após o serviço militar. Eu decidi seguir directo para a faculdade e depois comecei a trabalhar na área da produção e gestão de eventos, mas estava cansado e queria viajar. Como sempre adorei português, comecei pelo Brasil e depois Portugal.  E eu vou contar-te um segredo, disse-me enquanto se aproximava do meu ouvido. Eu faço muitas coisas, só não são trabalho ou estudo e isso faz confusão às pessoas, o que é engraçado.

Pelo meio chegaram dois madrilenos, um de férias outro de erasmus. O que estava de férias para além de não achar que eu fosse portuguesa, sabia hebreu e tinha estado em Israel, pelo que as conversas começaram a divergir no que a temas e a línguas faladas diz respeito.

No final, antes de me ir embora ainda agradeci ao Gal a coragem inspiradora, porque eu tinha passado os últimos dias, entre o entusiasmo e a ansiedade, amortizados em pedacinhos de victans e desporto, de estar prestes a embarcar numa “aventura” semelhante à dele, ainda que eu espere que a minha “viagem”, com data de inicio e término bem definidos,  ocorra, essencialmente, dentro de mim.

As dúvidas ficaram: Como te defines? Precisas de fazer para ser? O que nos define é externo ou interno a nós?  Porque é que sentimos a necessidade de quase pedir desculpa ou justificar a decisão de um dia parar, mais do que o período legal de férias, e tantas vezes até as próprias férias, como se o objectivo maior na vida fosse trabalhar (com excepção de poucos países, como a Itália em que o dolce far niente é acarinhado e levado à letra)?

 Arbeit macht frei (O trabalho liberta) é a famosa frase que se encontrava à entrada de vários campos de concentração. Acabámos com eles, mas mantivemos viva esta filosofia de vida no ocidente, glorificando-a e tornando símbolo de adoração  quem é capaz de pôr o trabalho acima de todas as coisas e quem trabalha mais do que as 9h diárias, 5 dias por semana.

E é por isso que eu gosto tanto destes encontros multiculturais. Vou ganhando mundos.

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