Hoje relembrei-me deste post que fiz a 31 de Janeiro de 2015 e isso fez-me sorrir e acreditar que mais dias 31 irão existir.

“(…)Tudo vale a pena se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”

O Cabo Bojador era também conhecido pelo Cabo do Medo. Acreditava-se que nele habitavam criaturas marinhas horrendas que nunca iriam deixar os marinheiros ultrapassar aquele ponto ao largo da costa africana, até que Gil Eanes tentou, tentou e finalmente ultrapassou. Mais tarde, algo semelhante ocorreu no Cabo das Tormentas dando origem ao mítico Adamastor. Quando tentei pôr por palavras o que foram estes longos meses de processo terapêutico foi este poema de Fernando Pessoa que me veio à cabeça. Agora já  sei responder: os ataques de pânico são para mim os imponderáveis da vida que não controlamos e que um dia se juntam e nos fazem acreditar que existem criaturas horrendas que nos irão fazer naufragar. E depois do primeiro naufrágio, por causa de uma tempestade mais forte, qualquer chuva miudinha é o suficiente para nos tolher os movimentos e nos fazer conduzir o barco para terra firme o mais depressa que conseguirmos.Sem terapia, um dia acreditaríamos ver monstros no Tejo. Ao longo “desta viagem”, que temos vindo a fazer em conjunto, o Luís mostrou-me como descortinar orografias especialmente íngremes e condições climáticas adversas, onde antes eu só via monstros, ensinou-me a marear no meio da tempestade, a saber suportar as forças que insistem em virar o barco e a ter capacidade de acreditar que após cada cabo dobrado existe sempre um porto seguro onde eu irei chegar. Sei que ainda me falta dobrar o Cabo das Tormentas ( gosto mais de lhe chamar Cabo da Boa Esperança ) para que possa finalmente ser nomeada comandante de uma embarcação, da embarcação da minha vida. Mas agora com o Adamastor por vizinho, cada vez que o coração acelera na iminência do desconhecido, com as (in)certezas das tempestades que se adivinham no horizonte, eu olho-o nos olhos e sorrio: tenho a certeza que no fim eu verei o céu.

E é isso que a ansiedade me ensinou: a apreciar um dia de chuva como aprecio um dia de sol, a apreciar as lágrimas como aprecio uma boa gargalhada, a querer desacelerar, a relativizar e a olhar à volta percebendo que cada novo obstáculo é um potencial factor de aprendizagem.

Dizem que quando olhamos para trás só vemos coisas boas e que o ontem foi sempre melhor que o hoje. Eu não me recordo da última vez que me senti tão leve, confiante e feliz como me tenho sentido nos últimos meses. Obrigada!

Tal como uma gastrite, também a TAG (Transtorno da Ansiedade Generalizada) tem cura… só leva um “bocadinho” mais de tempo, semelhante a uma doença de pele. Hoje dou a cara contra o estigma, por todos os que ainda sofrem em silêncio (e são tantos).

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