Não era um tópico que estivesse na minha mente escrever já sobre ele, mas uma das pessoas que assumiu ter passado por esta doença, disse-me, um dia destes, que também sofreu vários anos com ansiedade e que a principal técnica que a ajudou a curar-se foi o EMDR. Por isso, achei que valia  a pena explicar um bocadinho mais sobre este processo terapêutico.

O EMDR surgiu na minha vida através de uma amiga que, num dos meus momentos de desespero por não conseguir controlar esta desordem, me aconselhou um psicoterapeuta que utiliza o EMDR. Na altura eu estava desesperada com crises diárias (ataques de pânico e ataques de frustração devidas à incapacidade de os controlar) e, como ansiosa que sou, as palavras CURA e RAPIDEZ, associadas a esta técnica, soaram como sininhos na minha cabeça. Decidi arriscar!

Comecei, e nunca mais larguei, o Luís Gonçalves da Psinove, que utiliza comigo, entre outras técnicas, o EMDR.
P.S. A noção de rapidez da cura para um ansioso é completamente desfasada da realidade temporal necessária para que essa cura realmente ocorra. E não, não estou curada, mas desde que trabalho com o Luís (deve estar a fazer ano e meio), consegui passar 3-4 meses sem sequer me lembrar que existia a ansiedade, com uma sensação de leveza, bem-estar e alegria como nunca tinha experienciado, sequer, antes desta desordem ter entrado na minha vida. Uma espécie de renascimento. Há cerca de uns dois meses atrás tive uma recaída, que não se deve ao médico mas à minha inerente teimosia.

Equipamento de EMDR

EMDR ou Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares é um processo terapêutico que foi descoberto por Francine Shapiro, no final da década de 80, enquanto passeava num parque, tendo sido, primeiramente, utilizado para curar o stress pós-traumático de veteranos de guerra. Mais tarde, e já nos dias de hoje é uma terapia utilizada para tratar fobias, transtornos do pânico, depressão e outras enfermidades psicossomáticas.

Mas afinal qual a teoria por detrás do EMDR?

Segundo Shapiro, todo o indivíduo tem um procedimento de armazenamento de informação no cérebro.  Quando ocorre um evento traumático, há uma falha nesse sistema de armazenamento, e o evento fica “mal arrumado no cérebro”, fazendo com que haja uma disfunção entre a lembrança do acontecimento e as emoções trazidas por este.

De modo simplista, que eu não sou especialista, o objectivo do EMDR  é dessensibilizar-nos das experiências emocionalmente traumáticas, ajudando o cérebro a “arrumá-las” correctamente, através do estímulo bilateral do mesmo. Começou por se perceber que determinados movimentos oculares produziam este efeito, daí o nome. Contundo, hoje em dia, outras técnicas, que não envolvem necessariamente o movimento ocular, são utilizadas para  estimular alternadamente ambas as partes do cérebro. De forma consciente, o EMDR recria o que ocorre na fase REM (Rapid Eye Movement) do sono.

ATENÇÃO: o EMDR não apaga do cérebro essas memórias, só retira os sentimentos/emoções/sensações trazidas pelas mesmas.

Faço aqui um parêntesis porque há muita gente que sofre de desordem de ansiedade que não se recorda de ter tido qualquer evento traumático, no entanto, se pensarem bem, quase sempre houve um acontecimento trigger que despoletou o primeiro grande ataque de pânico e que a partir desse momento, como o medo se alimenta do próprio medo, após esse ataque, desenvolve-se, qual bola de neve a descer uma colina, a desordem de ansiedade.

Posso dizer  que hoje eu sei que um dos meus gatilhos, ou talvez a última gota de água, foi a viagem a Angola (com as sessões de terapia já descobri outros eventos mais antigos também “mal arrumados no meu cérebro”). Não foi em Angola que tive qualquer ataque de pânico ou crise de ansiedade, apesar da minha última semana em terras do Kududo ter sido vivida com níveis de ansiedade muito elevados e em vigilância permanente. Sei que a viagem a Angola ficou mal “digerida pelo meu cérebro”, porque cerca de 3 semanas depois do meu regresso, quando fui ao cinema com um amigo, ver o Mordomo (the Butler), comecei a sentir-me fisicamente mal, muito mal. Pensei que fosse o jantar que não me tinha caído bem, mas três dias depois a desordem da ansiedade, com ataques de pânico uns a seguir aos outros, abateu-se sobre mim. Mais tarde fiz a experiência com o filme Captain Philips, e saí a meio do filme completamente fora de mim, dando uma desculpa esfarrapada ao amigo que ía comigo.

Meses depois, tive que fazer uma viagem à Suécia –  antípodas de Angola no que se refere a questões de segurança – e de repente apercebi-me que só o pensar na viagem me fazia disparar a ansiedade e não conseguia perceber como iria entrar no avião (fiz a viagem 🙂 ).  Desde aí, cada vez que viajo de avião para um país diferente, os dias que antecedem as viagens são um tormento, por mais desejosa que eu esteja de as fazer. E não, não tenho medo de andar de aviões, aliás, costuma ser onde faço as melhores sestas ou onde trabalho melhor, e sempre que a viagem é a de regresso, nunca passo por esse medo irracional).

O EMDR pode não resolver tudo mas ajuda muito. Deixo-vos alguns links onde podem obter mais informações sobre esta técnica:

Entrevista com Francine Shapiro (eng)

Instituto de EMDR (internacional)

Associação EMDR Portugal (pt)

Oficina de Psicologia – EMDR (pt)

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